Era gincana da escola. Pela 1ª vez minha equipe estava na frente. No anfiteatro era uma etapa de perguntas e respostas, e entrega de objetos alheios, no final seria uma coreografia de um membro e nossa equipe contava com uma menina “fera” no teatro, ela ia apresentar uma música brega, que não consigo me recordar. Tudo corrido ótimo, mas havia um, porém, as horas estavam voando, e em minha mente só havia ela.
Como eu poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo?
Mesmo sem entender o porquê nada ali conseguia me entreter, eu resolvi dar asas ao meu coração.
Saí correndo da escola, e fui pra casa buscar a mesma bicicleta que uso hoje, dei uma desculpa esfarrapada a minha mãe dizendo que já estava acabando, que decidi ir embora porque estava muito chato.
Por que será que menti? Lá estava no meio da brincadeira, ainda teria a apresentação, e estava muito legal.
Peguei a bicicleta e lá fui eu, para frente da escola da vila, como de costume, ficar na papelaria esperando o sinal bater e eu ver o que tanto acelerava meu coração.
Somente quando adentrei a papelaria que devia medir no máximo 2 por 2 metros, é que achei o sol muito alto, o dia tão claro, e um silêncio estranho.
Nessas escolas de vila, quando se aproxima o horário do sinal bater, as salas de aulas já estão em alvoroço, já existem alguns pais que vão buscar seus filhos. E não havia nada daquilo. Quando decidi verificar as horas foi então que notei.
Naquela minha angústia em não perder a hora, eu havia me adiantado em uma hora.
Fiquei por ali, sofrendo calada sem entender que o porquê, aquela horinha que faltava me apertava o peito. Os minutos não corriam, parece que paravam. Lembro como se não tivesse passado tantos anos, lembro como se fosse ontem, ou no máximo há alguns meses.
Enfim a hora chegou! Meu coração batia tão alto que parecia que quem estivesse ao meu lado seria capaz de ouvi-lo.
E eis que os alunos começam a sair. Um a um vou analisando, e minha razão demorou uma eternidade a aparecer.
Quando meus olhos avistaram o motivo de me fazer olhar no relógio a adiantá-lo em uma hora, nesse momento, nada mais existia, como algo de novela, como se tudo que estivesse ao redor ficasse meio transparente, e só um foco me mantinha centrada.
A minha menina.
Linda, morena, cabelos castanhos escuros, um pouco abaixo dos ombros, pele sedosa, olhos grandes, castanhos, decididos, sorriso ingênuo e cativante, mesmo ainda longe de mim alguns passos eu já sentia o perfume que emanava dela, não como um perfume, ou creme, mas era um cheiro característico.
Ela era minha amiga já há alguns dias! E quanto mais os dias iam passando, eu sentia muito mais necessidade de ficar algum tempo em sua companhia, deve ser por isso que eu não notei a hora errada!
Não ficávamos muito tempo juntas, eu não era bem recebida em sua casa, coisas de adultos, eles já sabiam que eu seria uma mulher que gostava de mulher, ou como se diz vulgarmente, “sapatão”.
Mas mesmo assim, não me importava com isso. Eu a levava até sua casa, e ficava ali no portão conversando amenidades. Embora essas amenidades sempre eram perguntas, frases soltas ao ar que envolviam o amor. Imagina que nós iríamos ceder ao amor e afirmar que nos amávamos.
Nesse dia, quando nossos olhos se cruzaram, foi mágico. Ela sorria tão tímida, os cabelos soltos. Eu continuava como se ela fosse apenas mais uma, eu conseguia fingir pra ela, mas se ela soubesse tudo que havia me ocorrido naquele dia, que estava ali há praticamente uma hora, apenas a aguardando para levá-la embora.
Ela chegou com as outras meninas, formamos um círculo de amigas, e ela de frente comigo, eu ria, brincava e fingia não notá-la, afinal eu tinha medo.
Aquilo tomava meu peito em angústia, em sonhos, em vontades que eu não entendia e não queria aceitar.
Ela ali, tão alheia a confusão mental que se instalara em mim. E eu somente pensava: “meu Deus, como ela é linda”.
Naquele dia, embora eu tenha demorado mais de 15 anos para entender, e para concretizar, hoje posso dizer, eu estava ali como sua namorada.
Eu havia ido buscar a “minha namorada” na escola. Aquele amor proibido! Um amor que nasceu e é pra vida toda.


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