Ordem ideal

domingo, 28 de fevereiro de 2010

amor pra vida toda - cap 6

Nasci num tempo remoto. Família cristã, embora tinha o “líder” da família sempre as avessas. Criada pela avó.
Beleza era algo incomum a mim, sempre ridicularizada por usar óculos “fundo de garrafa”, sempre fora do peso ideal, altura também nunca me pertenceu.
Acho que criei um bloqueio, que por mais que eu me esforce não me recordo de fatos marcantes da infância.
Mas também não vem ao acaso, pois me lembro do início, se posso assim dizer, da minha escolha pela opção sexual.
Existia um grupinho de amigas, quatro para ser mais exata, de idades inferiores a minha, uma delas era minha vizinha, e naquela época, eu ainda virgem, e essa já era um tanto desinibida, e as outras 3 sempre estavam com ela, sendo assim sempre passavam em frente de casa.

Algo um dia me fez a mexer com elas, algum insulto.

E naquela época estava em alta um tal impeachament, as circunstâncias também não recordo, mas o fato é que acabei me aproximando das tais meninas.
E tinha uma delas, que me instigava o pensamento, eu lembro que a presença dela, o modo com o qual me olhava mexia comigo.
Nos tornamos amigas, mas essa menina sempre fugia ao meu olhar, nas conversas entre amigos ela quase não falava, gostava mesmo era de observar, e eu sempre sentia o olhar dela em mim.

De alguma maneira foi nascendo ali um laço, uma química entre nós sem explicação.
Sempre eu estava ali na saída dela da escola, a levava embora no cano da bicicleta, e eu sempre queria entender o que tanto me fazia ficar vibrada naqueles olhos que me devoravam, que me perseguiam, e quando eu perguntava algo mais íntimo, ela me mandava embora de sua casa.
Assim foram tantas vezes.
Eu ficava horas tentando entender o que não existia explicação.
Ela me olhava muito, sempre fundo nos olhos, mas quando eu a encarava ela fugia.

Lembro que nós sempre trocávamos cartinha, coisas de adolescentes, e eu expressa dizendo “eu te amo”, mas também não sabia ao certo que tipo de amor era aquele, se seria algo apenas de amigas, ou se existia um amor entre pessoas do mesmo sexo.
Ela me contou que uma vez, ela estava em minha casa, ajoelhada vendo TV, que cheguei por trás e tentei abraçá-la, que ela na hora me empurrou, eu caí sentada, e apenas a olhei, sem uma palavra se quer.

Hoje penso, será que eu ia mesmo tentar beijá-la?

Recordo também que muitas vezes a fiz chorar, eu chegava nela e na lata já ia dizendo: acho melhor nós nos afastarmos. Eu não sabia como dizer, e nem o porque que tinha de falar, mas longe dela eu via que crescia em mim uma necessidade imensa de ficar só com ela, conversando, rindo, as outras meninas, os outros papos, nada me davam mais prazer, e eu sentia medo.
O mesmo medo que ela sentia quando eu insistia nas conversas.

Eu não queria acreditar naquilo, e achava melhor fugir.

Mas ela sempre estava ali. Nas cartinhas que ela me escrevia sempre existia um sentimento oculto, que me deixava mais confusa ainda.
Então eu ia na casa dela e queria que me explicasse o que quis dizer com isto ou aquilo, ela se irritava, dizia que não era nada, mas eu pedia que me olhasse nos olhos, e ela não fazia isso. Nessas horas eu também dava uma de ruim, e já ia dizendo: “não te disse que devemos nos afastar?”, ela ficava mais brava ainda e me mandava embora.
Quando ela me mandava embora, eu abaixava a cabeça e ia praticamente em prantos, e dia seguinte lá estava eu na porta da escola onde ela estudava, disfarçando que esperava as outras meninas, quando na verdade era só ela que eu queria que estivesse ali. E ela se achegava como quem não queria nada, rodeava, dava um jeito de ficar ao meu lado, de sem querer encontar a mão em mim.
Ai eu sempre dizia que queria tinha algo a falar a ela, ela sorria, um sorriso lindo,e ficava próxima a mim. Eu sempre dava uma cartinha que dizia que tinha ficado triste, mas que a amava,e ela também me dava uma cartinha com algum versinho.
E tudo voltava ao normal entre nós.
Houve-se muitos comentários que existia uma relação homossexual entre nós, e como são essas pessoas, nem nós duas sabíamos o que existia entre nós, o mais fundo que íamos era a troca de cartinhas, onde até estava escrito “te amo”, mas nós nem sabíamos que tipo de amor era aquele.
Os rumores cresceram tanto, tanto quanto a nossa necessidade de estar sempre perto, que o inevitável aconteceu.
Os pais dela, pessoas de família crente, a fez mudar de escola.
A distância foi crucial, ela encontrou novos amigos, a rotina dela mudou, e automaticamente foi criando um enorme espaço entre nós.
Eu também mudei, fui obrigada a fazer tratamento psicológico, pois minha família me definia como “sapatão”, e que isso era uma doença.
Além desse tratamento, me aprofundei no mundo das drogas.
E assim aquela menina dos meus sonhos, foi sumindo...
Me recordo de todo início da primavera, sempre lembrava dela, sorrindo ...

Mudei de estilo, arrumei um namorado, perdi minha virgindade, fui fazer cursinho, ganhei um carro, e continuava usando drogas quase que diariamente.
Nos falamos algumas poucas vezes, mas muito supérfluo.
Nessa época fui fazer faculdade, morei fora, e só sabia que em mim ainda existia uma certa atração por mulher, mas isso não me tirava a tesão de sair com vários homens. Da vida da minha menina só sei que ela tinha virado meio que uma patricinha, muito linda, muito desejada pelos homens, que só saía com homens ricos.
O tempo passou. Acabei a faculdade e fui morar em São Paulo.
Foi então nessa época que realmente tive minha primeira relação com mulher.
E descobri que era isso que eu gostava muito.
Morei dois anos lá. Depois, voltei a minha cidade pacata do interior.
Saí com algumas mulheres, namorei algumas por um bom tempo.

Minha família acabou me aceitando, aliás, muito mais minha mãe, pois hoje meus pais são separados, o tal “líder” da família se assumiu um “puteiro” de carteirinha, e hoje é casado com outra mulher, e dessa união nasceu minha única irmã.
Aprendi a me aceitar tal como sou. Continuo não tendo beleza exterior, mas sou feliz.
Bom, mas aquela menina ainda existe. Agora entra a parte do “amor pra vida toda”.

Um dia de domingo, eu navegando no site de relacionamentos, comecei a buscar alguns amigos antigos a adicionar.
Como que um relâmpago, lembrei-me dela, com nome e sobrenome.
Digitei na caixa de pesquisa, e eis que surge ela, linda! Igualzinha aquela menina. Na hora fiz as contas de quantos anos haviam se passado, até me assustei, foram 17 anos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário