Ordem ideal

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

amor pra vida toda - cap 4

Sempre quando eu ia na casa dela eu ficava no portão, e mais ainda sentada na bicicleta. Lembro que apoiava o pé na calçada e sabe aquele espaço que se forma, então, por muitas vezes ela vinha e sentada no cano.


Meu Deus, só de lembrar meu coração acelera.

Nossas conversas nunca tinham um fundamento.
Porém o que mais eu fazia era sempre colocá-la em uma “sinuca de bico” (nem sei o porque desse nome, mas ela usa esse termo até hoje), eu vivia fazendo perguntas do tipo o que eu representava pra ela, ou afirmava que seria melhor a gente se afastar.

Na frente da casa dela era mato, e aquele verde eu não me esqueço, pois quando eu fazia esse tipo de pergunta, eu fugia do olhar dela e em mente adentrava aquele mato, correndo feito louca, fugindo da resposta.

O irmão caçula sempre estava por perto. Creio que meu laço com ele foi criado nessa época, e hoje eu sinto tanto carinho por ele que é inexplicável, mas não sei se ele ficava ali apenas por ficar, ou como sempre se era uma ordem da mãe dela.
Isso sempre me fazia pensar: “Mas porque tanta insegurança dela ficar perto de mim?”, nunca soube entender!

Entre minha menina e este irmão surgia apelidos carinhosos entre eles, e assim, até mesmo a cachorra recebeu esse apelido.
Eu desejava tanto ser parte daquela família, que a mim se resumia na minha amiga, no seu irmão caçula e na cachorra, que eu também usava os apelidos por eles criados.

Um dia, como na rotina que se instalara, fui buscá-la na escola, e este irmão disse que ela não havia ido, o pai tinha batido nela, que ela estava de castigo. Sinal que comigo ela também não poderia falar.
Mas, mesmo assim eu sem medir as conseqüências fui na casa dela. Quando a chamei, ela saiu no portãozinho, olhos inchados de chorar. No primeiro instante eu quase pulei aquela grade só pra abraçá-la, eu sentia vontade de bater no pai dela, não achava justo a minha amiga apanhar. Quando ela mostrou as marcas e explicou que apanhou porque o pai tinha descoberto que ela fumava, eu tive uma sensação tão ruim, e aquela sensação me consumia a alma.
Dentro de mim tudo era confuso. Porque que eu tomava tanto as dores dela? Porque, porque.

Nesse dia ela não saiu na calçada, e em pouco tempo a mãe dela a mandou entrar.
Eu como sempre fui embora em uma tristeza sem fim, que apertava o peito. E quanto mais eu pensava, mais medo eu sentia.
Naquele dia eu só queria colocá-la na minha bicicleta e levá-la a passear. Sentir a brisa tocar sua face, me embebedar na essência do seu cheiro, sentir sua pele encostada na minha e tirar toda dor de seu coração.

Nenhum comentário:

Postar um comentário